Na semana em que estudantes se dedicam à segunda etapa do Enem, o Jornal Nacional mostra um retrato da educação básica na rede pública de ensino. É um balanço dos problemas e também a chance de conhecer exemplos de eficiência.
“Uma das características mais fortes da educação brasileira é a desigualdade”, disse a presidente-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz.

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“Em educação, você não pode deixar nenhum para trás”, afirmou a diretora da Fundação SM Brasil, Pilar Lacerda. A preocupação das educadoras é com o ensino que vai do primeiro ano até o quinto, base de todo aprendizado. No geral, o Fundamental 1 vai bem, tem nota acima da meta estabelecida pelo MEC, mas a média pode esconder graves deficiências.

“A gente tem municípios que têm conseguido garantir aprendizagem de perto de 70%, 80% de seus alunos, e você tem municípios que têm conseguido garantir perto de 10%, 5% de seus alunos. Então é essa distância que vai determinar não só a vida escolar futura desses alunos que hoje estão no Fundamental 1, mas toda a sua vida”, explicou a presidente executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz.

Parte dos bons resultados é atribuída à administração local. A maioria dos municípios é responsável por essa etapa da educação, mas diretores, professores e alunos é que fazem a grande diferença. O Jornal Nacional foi a Itanhaém, no litoral paulista. Lá os professores têm salário melhor que o das escolas particulares. Ganham para preparar as aulas e são cobrados para que ninguém fique sem aprender.

Diretora: Me explica quais as ações que você vai tomar com essas crianças que estão em amarelo?
Professora: Eles já estão na recuperação. Acredito muito no potencial deles, porque eles têm muita vontade de aprender.

O esquema tem dado certo. Em dez anos, o município só melhorou as notas do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Está perto da média paulista e já superou a nacional. Como isso foi possível?

“A gente percebeu que a rede tem dificuldade muito com ortografia e produção de texto. Então oficina de ortografia, oficina de produção de texto, jogos matemáticos, para que as crianças aprendam a matemática de forma lúdica. O conteúdo matemático de forma lúdica. Então todos esses instrumentos fizeram com que o resultado fosse evoluindo progressivamente com os anos”, explicou a diretora da escola Luciana Ubrig.

Estratégias como essas levaram 66% dos alunos de Itanhaém a terem um bom desempenho em português e 61% em matemática, mais uma vez, acima da média nacional.

“A minha geração de professores dizia: eu ensinei. Mas os meninos aprenderam? Isso era um problema deles. A grande virada desse século é que os debates de todos os lados são: como que eu faço para eles aprenderem. Não existe ensino sem aprendizagem”, afirmou a diretora da Fundação SM Brasil, Pilar Lacera.

Para despertar o interesse dos alunos e garantir o aprendizado, existem vários caminhos. O Jornal Nacional pegou a rota do Sul: de Itanhaém, no litoral paulista, até Piratuba, em Santa Catarina. Uma escola tem traços alemães, mas o jeito de cuidar das crianças é bem brasileiro.

“É a melhor do mundo, porque ela tem ótimos professores e ótimos ensinos. Eu também gosto de ler e tem vários livros aqui”, disse a Raíssa da Silva, de 6 anos.

Os livros têm lugar especial e são tratados com muito carinho. A escola fica em Piratuba, oeste catarinense, município que, no Ideb, tem nota média acima de sete no Fundamental 1. Desempenho muito melhor que as médias do Brasil e do estado. No laboratório de ciências, pode ser divertido estudar o corpo humano.

Professora: Todas as pessoas são diferentes, cada um tem sua cor, sua raça.
Repórter: E que tipo de pessoa você está fazendo aí?
Aluna: Eu estou fazendo uma pessoa colorida.

Parece pura brincadeira, mas é a aula no laboratório de matemática. Desse jeito, 82% dos alunos tiveram bom desempenho em matemática e em português. “A gente já fez um monte de atividade assim, brincando e conseguindo aprender”, disse um aluno.

É fundamental ter professores qualificados, motivados, com vontade de trabalhar. Assim eles conseguem transformar o que seria uma simples aula em uma grande aventura. Isso em qualquer cenário.

Repórter: O que você aprendeu nesta aula?
Aluna: Os cinco sentidos.

Participam das reuniões na escola 97% dos pais. A maioria dos professores tem pós-graduação e continua estudando. “O professor está buscando novas tecnologias, um material que seja atrativo, que chame a atenção da criança, né?”, disse a diretora da escola, Magrid Auler.

É educação feita com carinho. “A gente ama as nossas crianças, a gente acolhe eles com muito carinho. Tem eles como nossos filhos, um pouco nossos filhos”, afirmou uma professora.

Os municípios que evoluíram nas últimas avaliações nacionais têm outra característica em comum: eles seguem de perto os passos dos alunos também fora da escola. Em Itanhaém, por exemplo, quando um estudante começa a faltar demais as aulas, uma equipe especial entra em ação para tentar descobrir, investigar, o que está acontecendo com esse aluno.

Damião coordena a equipe de agentes sociais e diz que muitas crianças abandonam a escola por descuido dos pais.
“Porque os pais não incentivam, largam elas nas ruas e aí é onde que nós entramos com toda a nossa equipe e a rede para podermos resgatar não só a família, principalmente a criança, que são os nossos alunos”, disse o coordenador do Programa Social Escolar, Damião Avelino da Silva.

Os agentes também descobrem casos como o dessa família, que não matriculou os filhos por falta de documentos.
“Eles falaram: ‘Não, a gente tem que colocar essas crianças na escola’”, disse a mãe.

“Não tem segredo, desde que cada um faça sua parte, faça o seu papel. A diferença é que aqui no município a gente tem a estrutura e essa estrutura é trabalhada para que ela funcione”, afirmou o agente social escolar Robson Fernandes.

Com novos documentos, Eduardo, Nicole, Lívia e Lya agora frequentam as aulas regularmente e são exemplos de dedicação.

“Ela está sempre buscando aprender e fazer até colaborar com os colegas. Ela é uma criança bem ativa”, disse a professora da Lya, Vivian Martinez.

Repórter: O que você acha dessa profissão de professora?
Lya da Silva Santos (9 anos): Eu acho um exemplo.
Repórter: Por quê?
Lya: Porque ensina outras crianças como você já aprendeu um dia.
Repórter: O que você tem para dizer para as crianças que não gostam de ir para a escola? O que você diria para elas?
Lya: Eu diria que é bom estudar, pensar no futuro e agir no presente.

(Jornal Nacional, 09/11/2017)