Ampliar o combate ao analfabetismo e à evasão escolar, diminuir a distorção idade-série e tornar o ensino mais significativo para jovens à margem da educação e do mercado de trabalho estão entre os desafios que acendem um alerta na educação brasileira, como mostra a pesquisa Educação 2017, divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua).

O levantamento revela a dificuldade brasileira de se trabalhar com planejamento em longo prazo em relação ao Plano Nacional de Educação (PNE), estabelecido em 2014 e que aponta diretrizes, metas e estratégias para política educacional até 2024. Metas intermediárias importantes como elevação da taxa de alfabetismo para mais de 93,5% e a universalização do atendimento escolar para a população de 15 a 17 anos, não foram cumpridas.

“As metas são importantes para criar um alarme significativo, mas seria interessante que o PNE também cobrasse proposições afirmativas e inovações de políticas para que se alcance os resultados”, afirma Wagner Santos, sociólogo e coordenador do Núcleo de Juventude do CENPEC.

A seguir confira quatro dados alarmantes trazidos pela pesquisa Educação 2017 e algumas soluções apontadas por especialistas:

1. O Brasil tem 11,5 milhões de analfabeto

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Em 2017, 7% das pessoas com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever, o que equivale a 11,5 milhões de analfabetos. O número caiu nos últimos anos, mas ainda longe da meta intermediária do PNE, de redução da taxa para 6,5% em 2015, com erradicação até 2024.

Segundo Ana Lima, diretora-executiva do Instituto Paulo Montenegro/Ibope, a população considerada totalmente analfabeta é de um nicho específico, cujas políticas educacionais pouco alcançam. “São pessoas de idade mais avançada, que ainda estão ou permaneceram muito tempo na zona rural e que tiveram poucas oportunidades de estudo. Com o tempo, esse número diminui naturalmente”.

Para a especialista, os esforços devem ser concentrados na redução das taxas de analfabetos funcionais, que chega a 27% e engloba pessoas que cursaram a escola em algum nível, mas que mesmo assim são incapazes de compreender e interpretar textos simples e fazer operações de matemática de baixa complexidade.

“Além de assegurar que a escola efetivamente alfabetize as crianças, nós, enquanto sociedade, deveríamos pensar em outras formas de facilitar a alfabetização de adultos que estão em idade produtiva e que não vão voltar para a escola”, diz a especialista, ressaltando a necessidade de igrejas, empregadores, sindicatos e meios de comunicação se envolvam no processo.

2. Aumentou o número de jovens ‘nem-nem’

Dos 48,5 milhões de jovens de 15 a 29 anos, 23% (11,2 milhões) não trabalham, nem estudam ou se qualificam. Esse contingente cresceu quase 6% de 2016 para 2017, o que equivale a mais de 600 mil pessoas. A taxa é maior para mulheres (28,7% contra 17,4% de homens) e entre pessoas da cor preta e parda (25,9% frente a 18,7% de brancos).

O desaquecimento da economia brasileira pode ser uma explicação, já que dificulta o acesso ao emprego, sobretudo das populações de maior vulnerabilidade. “São jovens que não se sentem capacitados, tiveram uma trajetória escolar insuficiente, trabalham em serviços temporários e com remuneração precária. Eles respondem às demandas imediatas e não conseguem sair do ciclo da pobreza”, explica Wagner Santos, do CENPEC.

Como as políticas públicas não chegam nesse público, o especialista defende o mapeamento de coletivos de jovens que promovam uma ponte com as políticas educacionais e do trabalho. “Algumas prefeituras, como São Paulo e Minas Gerais, já se aproximam de iniciativas que surgem na periferia e que, quando bem articuladas, garantem um currículo de formação para o jovem”, afirma o sociólogo.

3. Trabalho é a maior justificativa para a evasão escolar

São mais de 25 milhões de jovens de 15 a 29 anos que não concluíram a graduação e não frequentam a escola, tampouco cursos pré-vestibulares ou técnico. O grupo é majoritariamente composto por pessoas da cor preta ou parda (64,2%) e homens (52,5%).

Os principais motivos citados para a interrupção dos estudos são trabalho (39,7%), falta de interesse (20,1%) e cuidar de pessoas ou afazeres domésticos (11,9%). “O jovem precisa enxergar a escola como uma opção que vai ajudá-lo a ter um futuro melhor, mas, para isso, ela precisa ser mais atrativa, falar a língua dele”, afirma Ana Lima.

4. Distorção idade-série ainda é grande para o Ensino Médio

Outra meta do PNE que não foi alcançada é a de garantir que 85% dos estudantes do Ensino Médio estejam frequentando a série esperada para a idade. Em 2017, apenas 68,4% dos alunos tinham entre 15 e 17 anos, faixa etária que idealmente é prevista para quem cursa a última etapa da educação básica. São quase 2 milhões de estudantes atrasados.

Desmotivação e desconexão com os colegas de turma são grandes problemas do atraso escolar, além da dificuldade para acompanhar o conteúdo ensinado, uma fragilidade que geralmente vem do ensino fundamental. Um dos caminhos para a redução da distorção é mapear as dificuldades dos alunos e fazer com que a escola ofereça alternativas para que o estudante tenha uma aprendizagem mais significativa e eficiente.

Os avanços

Apesar dos entraves, a pesquisa também trouxe algumas boas notícias: cada vez mais pessoas estão recorrendo à modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para conseguir concluir a educação básica. Em 2017, 853 mil pessoas frequentavam o EJA do ensino fundamental e 811 mil, o EJA do ensino médio, o que representou, respectivamente, um crescimento de 3,4% e 10,6% em relação aos números de 2016.

A proporção de pessoas com mais de 25 anos que conseguiram concluir a educação básica obrigatória também aumentou, passando de 45% em 2016 para 46,1%. Já a média de anos de estudo aumentou em todas as regiões do Brasil, chegando a 9,1 anos em 2017.

INFO-PNE

(Portal Fundação Telefônica, 4/7/2018)

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