Foto: Fabio Cordeiro / Agência O Globo

RIO — Professora de Educação Física na rede municipal e especializada em psicopedagogia, Fátima Bispo aprendeu a jogar xadrez com alunos que se preparavam para participar de um campeonato da modalidade, no fim da década de 1990. Chegando à competição, a imagem de 200 jovens sentados e concentrados em seus jogos lhe impactou a ponto de fazê-la querer entender mais sobre o esporte. Observadora, como todo bom jogador de xadrez deve ser, também percebeu que os alunos com dificuldade de alfabetização não tinham problemas para aprender a lógica da movimentação das peças, o que só fez seu interesse pelo jogo aumentar.

Com isso, resolveu inserir o xadrez em suas aulas de Educação Física, na Escola Municipal Frederico Eyer, na Cidade de Deus. Mas a proposta logo gerou reclamações dos alunos por roubar tempo das atividades físicas, já restritas durante o período na instituição. Foi assim que ela, certa do poder pedagógico da modalidade, criou o projeto “Heróis do tabuleiro”, hoje presente em 20 escolas da rede municipal. Graças à ação dela e de outros professores — todos de Educação Física na rede pública e voluntários —, hoje o xadrez faz parte da grade curricular, com aulas próprias, uma vez por semana, e sem demérito de qualquer outra matéria, ajudando na disciplina e na concentração dos estudantes.

Além da unidade Frederico Eyer, a aula está presente em 19 escolas: Leila Barcellos de Carvalho e José Clemente Pereira, também na Cidade de Deus; Maria Florinda Paiva Cruz, no Anil; Almeida Garret, na Barra; Maria Clara Machado, no Itanhangá; Pedro Américo, Thaumaturgo Azevedo e Madre Teresa de Calcutá, na Taquara; Luíz Camillo e Pedro Aleixo, em Jacarepaguá; Professor Delgado de Carvalho e Professor Jurandir Paes Leme, no Recreio; Lincoln Bicalho, Silveira Sampaio, Mano Décio da Viola e Rubens Paiva, em Curicica; Virgilio Varzea, no Pechincha; Augusto Cony, no Tanque; e Perola Byinton, em Vargem Grande. São cerca de sete mil crianças e adolescentes ao ano descobrindo o esporte na sala de aula.

— O projeto começou com as turmas de baixo rendimento, as que tinham maior dificuldade de aprendizado, porque percebemos uma melhora nas funções cognitivas. Hoje ele atende os alunos no geral, mas é com aqueles tidos como os mais problemáticos, que tendem a ser mais agitados em sala de aula, a responder ao professor, que percebemos a melhora mais significativa na postura — conta Fátima.

As aulas de xadrez acabam sendo responsáveis por mostrar o que há de melhor nos estudantes com problemas de comportamento. Ali, em meio ao vaivém das peças no tabuleiro, descobre-se a destreza, a rapidez de pensamento, a capacidade de concentração e a ética, entre tantos outras qualidades possíveis despertadas pelo jogo. Com essa nova perspectiva do aluno, os professores acabam tendo dicas e novas possibilidades de abordagem para lecionar as outras disciplinas.

Para poder comprovar com dados o poder do xadrez na vida acadêmica e social com os jovens, os professores do “Heróis do tabuleiro” começaram a colher este ano índices dos alunos e sua evolução com o projeto. Esperam ter nos próximos anos números que ecoem a percepção que têm diariamente.

— Nós acabamos descobrindo todo o potencial do aluno que é tido como um problema, e passamos a ressignificar tudo que sabemos sobre ele — resume ela.

Com o projeto, boa parte das escolas passou a ter uma sala exclusiva para a prática do xadrez. As aulas são dadas a partir do 1º ano, para alunos com 7 anos, e vão até o 9º ano, para jovens com 14 e 15 anos.

Outro fator positivo observado é o estreitamento do laço familiar graças ao xadrez.

— Uma vez que eles aprendem, jogam com os familiares. Há também os alunos que já jogavam com os avós, que, quando descobrem que aquele passatempo com o neto virou disciplina na escola, ficam mais participativos na vida escolar do aluno — diz a professora.

Ao todo, 23 professores fazem parte do projeto. Sem receber nada a mais por isso, submeteram-se a aulas fora do horário do expediente para aprenderem a lecionar o xadrez — mesmo aqueles que já sabem as regras e jogam habitualmente. No curso de capacitação, dado pela própria Fátima Bispo, a abordagem pedagógica mais eficiente para ensinar os jovens é tão importante quanto o domínio da técnica.

Nei Bechara Gomes é um dos que fizeram o curso. Sabia pouco sobre xadrez, mas achou a proposta interessante e correu atrás. Hoje é o responsável pelo projeto na Escola Municipal Pedro Américo, na Taquara.

— Eu nunca pensei em dar aula de xadrez. Tinha uma noção do jogo, mas queria conhecer mais. Fiz o curso de capacitação, que acontece à noite, e descobri qual a melhor maneira de abordar o estudante com dificuldade — relata ele.

Mas engana-se quem acha que a dedicação do corpo docente envolvido acaba por aí.

— A gente se reúne uma vez por semana e discute as dificuldades que encontra em sala de aula, além de jogar. Isto porque é importante sempre estar desenvolvendo o jogo para poder ensinar, senão a aprendizagem do aluno fica limitada ao professor, fica capenga — afirma Gomes.

Para ele, toda e qualquer dificuldade acaba recompensada pela melhora da autoestima observada entre os alunos:

— Eles aprendem e correm para mostrar aos pais. Ficam orgulhosos porque é um jogo que muita gente à primeira vista acha muito difícil, que diz que nunca vai aprender; e ele está lá, conseguindo.

Diretora da escola na Taquara, Patrícia Rodrigues de Menezes engrossa o coro de elogios aos frutos do projeto.

— Nós notamos que o xadrez fornece estímulos ao aluno, que auxilia na aprendizagem. Por isso, a escola tem uma sala de aula dedicada só para o xadrez. Disciplina, concentração, dedicação, criatividade, tudo isso acaba sendo trabalhado pelos professores — garante ela.

Um outro apelo que ajuda o gosto pela prática é o diferencial que nenhuma outra matéria é capaz de oferecer: nas aulas de xadrez, o risco de ser reprovado é nulo.

(Portal O Globo, 03/10/2017)

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