Valorizar a vida no campo, resgatar tradições e reforçar elos geracionais: essa é a proposta do “Memorial da Gente – Resgate de memorias afetivas e preservação do patrimônio histórico”, projeto realizado pelos alunos da Escola Estadual Sebastião Gomes de Oliveira, no distrito de Melancias, zona rural de Apodi (RN).

Realizada por estudantes do 7º e do 9º ano do Ensino Fundamental, a iniciativa é uma das finalistas do Desafio Criativos da Escola 2017 e buscou motivar os alunos a conhecerem a sua própria história. Por meio da ação, o grupo passou, por exemplo, a perceber as mudanças de costumes e a valorizar a preservação da linguagem regional e da identidade coletiva.

Para isso, foram envolvidas pessoas da comunidade por meio de duas ações principais: o registro fotográfico e o garimpo de informações em visitas a moradores idosos da cidade, em busca de suas histórias.

Patrimônio histórico e cultural

A fim de mapear o patrimônio histórico cultural da comunidade, desde seus casarões coloniais às vivências e costumes, os alunos montaram um museu fotográfico itinerante e um virtual. “Fotografar é como congelar momentos e foi o que fizemos, além de resgatar nossa própria cultura e identidade, foi uma ótima experiência”, acredita Lusia Leite, que participou do projeto aos 12 anos.

Para preservar a linguagem local, foram coletadas expressões e verbetes que deram origem ao Dicionário de Verbetes e Palavras, denominado “Melanciês”. E mais: após toda documentação e catalogação, por sugestão de uma aluna, o resultado foi levado à Câmara de Vereadores de Apodi para reivindicar a preservação do patrimônio do município.

Com continuidade em 2018, o Memorial da Gente resultou, também, na organização do Festival de Teatro e Danças Populares, promovido pela Diretoria Regional de Educação.

“Esse projeto foi um grande aprendizado para todos nós, a partir dele começamos a valorizar e olhar com outros olhos os nossos traços familiares, porque essas famílias têm muito a contar, seus conhecimentos, tradições e vivências para as gerações futuras. De geração em geração, vamos conhecendo algo novo, novas maneiras de interagir, novos costumes e também uma gigantesca cultura construída ao longo de nossos laços familiares”, aponta o aluno Vinícius Freire.

Resgate de tradições

O desafio foi grande. Para se deslocarem por regiões ermas, sobretudo percorridas a pé sob sol escaldante, os estudantes recorreram à criatividade: paramentaram uma carroça e, juntos, conseguiram cumprir a missão de, mais que histórias, coletar emoções.

“Muitos idosos entrevistados são familiares dos alunos e, em grande parte, garantem o sustento da família através de pensão ou aposentadoria. No entanto, as relações de respeito eram esgarçadas, faltava apreciação às experiências vividas pela geração mais velha. Faltava afeto e sensibilidade. A partir das visitas e da escuta, os olhares foram sendo modificados”, observa uma das professoras que orientou o projeto, Patrícia Raposo.

Uma visita importante aconteceu à senhora Maria de Gentil, que recebeu cada jovem com uma bênção individual: um aperto de mão e a verbalização de um “Deus o abençoe”. Essa vivência tocou o aluno Jhoantony Oliveira, na época com 12 anos, que disse ter voltado outras vezes só pra receber a bênção, “uma tradição que está se perdendo e foi muito marcante”.

Já no encontro com os poetas repentistas João de Antão e Cristino, tios do aluno Vinicius Freire, na época com 12 anos, a turma pediu para João recitar um poema sobre a morte de um pai, agricultor, que deixa uma viúva com muitos filhos para criar. “A poesia traduz a dor, o luto da mãe e a dificuldade em cuidar dos filhos. Pedir para ouvir um relato desse tipo sinaliza o respeito e a valorização da vida difícil do sertanejo”, explica Patrícia.

O fascínio dos objetos antigos

O projeto ajudou os alunos, também, a se sentirem mais à vontade com a vida no campo e suas condições de existência. Eles passaram a estabelecer vínculos mais fortes com os idosos e a reconhecer o valor histórico de móveis e objetos antigos como ferramentas e documentos.

Impressionada com o ferro à brasa usado para passar as fardas dos soldados que chegavam à cidade – encontrado na casa da senhora Laurita Leite – a aluna Graça Silveira, 11 anos, buscou um pedaço de carvão na casa do avô para ver funcionar o utensílio. Espantada, comentou: “como ela conseguia engomar com um ferro tão pesado?”.

Outro objeto que despertou curiosidade nos alunos foi o radinho de pilha de Seu Decinho, que há mais de 50 anos nunca deixa faltar carga para o velho companheiro, sua única fonte de informação. “Esse relato causou encantamento, pois o rádio não é usado entre os alunos que, apesar de estarem no campo, portam seus smartphones com notícias chegando a toda hora com um simples toque na tela”, conta professora Patrícia.

(Criativos da Escola, 24/05/2018)

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support