Professor de Artes dando também aula de Inglês, os de História ensinando Sociologia e os de Sociologia no lugar dos colegas de Filosofia. O acúmulo de disciplinas é rotina na rede pública estadual do Rio, relatam profissionais ouvidos pelo Estado, que se sentem sobrecarregados com o acréscimo de trabalho trazido pelas novas atribuições. Eles se ressentem também do encerramento de turmas no meio do ano, o que faz com que recebam classes novas de mais de 50 alunos.

Mestre em Infectologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a bióloga Anna Carla Guilherme, de 39 anos, fez concurso para ensinar apenas Biologia, mas foi transformada em professora de Química e Física. São 12 turmas para alunos do 1.º, do 2.º e do 3.º ano do ensino médio, o que demanda dedicação extra em casa para preparação das aulas.

“Já é o segundo ano assim. Tenho de estudar antes de dar aula de Física, fazer o meu dever de casa”, conta Anna Carla, que tem seis grupos com cerca de 30 alunos cada. “É muito injusto com o aluno, porque eu estou preparada para dar aula só de Biologia. Óbvio que se perde qualidade. Estão destruindo a educação do Estado. Não nos respeitam, é humilhante.”

Professores afirmam que o sistema vem funcionando assim: a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) analisa o histórico de disciplinas que o professor cursou na faculdade e o habilita a dar aulas de outras disciplinas que não são as suas de origem. Áreas consideradas afins, como a Sociologia e a Filosofia, e a Física e a Matemática, têm sido unidas preferencialmente. Mas também há casos inusitados, como professor de Educação Física ensinando Artes e de Artes dando aula de Inglês. Nesse caso específico, a profissional de Artes se recusou a dobrar a disciplina, e a situação foi revertida.

A Seeduc negou, porém, que haja acúmulo de funções pelos professores e informou que a prática tem previsão legal, é “rotineira”, utilizada “há muitos anos” e não resulta em mais horas de trabalho. “O professor habilitado em sua formação pode dar aula em diversas disciplinas, o que é uma prática em qualquer Estado e também em escolas privadas. É o próprio professor que pede enquadramento, demonstrando a sua habilitação.”

Segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) do Rio, cerca de cem das mais de mil escolas da rede já estão com esse remanejamento. O déficit da rede, que tem mais de 50 mil professores, chega a 10 mil, nas contas da entidade (a Seeduc não forneceu o dado oficial). De acordo com a Seeduc, “professores excedentes em determinadas unidades” estão sendo realocados “para suprir eventuais carências”.

Abandono. “O Estado decidiu fazer uma gambiarra e está inviabilizando o projeto pedagógico”, afirma a coordenadora-geral do Sepe, Marta Moraes. “Se toda hora muda o professor, a tendência, cada vez mais, é o aluno abandonar a escola.”

(O Estado de S. Paulo, 22/06/2017)