(Foto: Lanna Silveira/Esp.CB/D.A.Press) 

“A tia fez um escondidinho de carne suína e purê de mandioca. Tem cenourinha, que faz bem para as unhas e o cabelo e deixa a pele maravilhosa.” É com este tom carinhoso que a merendeira Nuap dos Santos, 35 anos, anuncia um dos pratos que serve para as crianças da escola em que trabalha na Cidade Ocidental, distante 46km do Plano Piloto. A iguaria, além de ser servida no Centro Municipal de Ensino Infantil Benedito Antônio, onde ela trabalha há um ano e meio, levou Nuap à fase nacional da segunda edição do concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O concurso seleciona pratos servidos em colégios públicos de todo o país. A iniciativa recebeu mais de 2 mil inscrições e, após provas eliminatórias municipais e estaduais, selecionou 15 finalistas. As mulheres provaram as habilidades culinárias numa prova de fogo na cozinha experimental do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Taguatinga.

Divididas em duas turmas, elas se revezaram no comando dos fogões por 15 minutos. Hoje, serão conhecidas as cinco vencedoras, uma de cada região do país. Cada uma levará para casa R$ 6 mil e ainda terá a chance de fazer uma viagem internacional. Nuap conta com a torcida de cerca de 250 crianças para ganhar o prêmio. O colégio onde a goianiense trabalha, no Entorno do DF, tem apenas duas pessoas na equipe da cozinha: além de Nuap, o assistente Alejandro Pimentel, 29, atua no local. “É muito mais que a preparação de um prato em uma cerimônia. É uma forma de reconhecer, de valorizar e de falar para mim mesma que meu envolvimento e meu compromisso valem a pena”, relatou a merendeira.

A estrela do juri foi a estudante Sofia Marinho, 12 anos, aluna do 6º ano do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 104 Norte. Ela, que adora merendas da própria escola, foi escolhida para provar e avaliar os pratos vindos de todo o Brasil. A jovem aprovou as receitas que experimentou na competição: “todas maravilhosas”. Para Sofia, essa competição é necessária para “valorizar as próprias merendeiras e os pratos feitos por elas”. Outros avaliadores foram o chef do restaurante Bloco C, Marcelo Petrarca; Mariana Rocha, representante do Centro de Excelência Contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos da ONU; Lorena Medeiros, do Conselho Regional de Nutrição (CRN), em Brasília; e Alda Oliveira, presidente do Conselho de Alimentação Escolar de Roraima.
Seleção

A seleção das merendeiras envolve o Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Centro de Excelência contra Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP). Entre os pratos preparados estão caldo de bode, rocambole de baru, panqueca de polenta e muitos outros. No entanto, o concurso não leva em consideração apenas o talento na cozinha: para participar, era preciso inscrever uma atividade de educação alimentar e nutricional promovida pela merendeira em parceria com um nutricionista da região ligado ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

“Eu fazia o tão odiado arroz com sardinha”, conta sobre as refeições preparadas quando começou como merendeira. De lá pra cá, a escola deixou de receber o peixe e passou a receber mais vegetais”, lembra Nuap. Ela se diz orgulhosa dos legumes que recebe agora da agricultura familiar. “Pimenta de cheiro, cheiro verde, couve-flor, agrião, batata, beterraba cenoura, quase todas as verduras”. Foi essa variedade que inspirou a merendeira a preparar uma nova receita quando soube do concurso por meio de um amigo. “Se tenho todo esse material, eu me sinto estimulada a criar, fazer coisas diferentes.”

Quando uma amiga sugeriu que ela participasse do concurso, Nuap decidiu fazer a receita do escondidinho do zero. “Queria montar um prato completo, que atendesse as necessidades das crianças, porque é a única refeição que muitas têm durante todo o dia.” Levou um fim de semana para bolar o prato. “Dei uma olhada nos ingredientes, nas possibilidades e pensei ‘carne suína com purê de mandioca é tudo de bom.”

(Correio Braziliense, 26/10/2017)