“Se todas as crianças de 8 anos aprenderem meditação, nós eliminaremos a violência do mundo dentro de uma geração” . A afirmação do monge budista Dalai Lama faz mais sentido do que nunca e está sendo levada a sério em algumas instituições de ensino do Rio. Colégios das redes pública e particular da cidade estão oferecendo exercícios de meditação para crianças e adolescentes durante o horário escolar. A prática, que estimula a observação e aguça a concentração, está conectando estudantes que se relacionam com um mundo cada vez mais agitado e repleto de estímulos externos. Mas, desta vez, a conexão não é virtual e, sim, interior.

Na Escola Municipal Dom Pedro I, na Barra da Tijuca, a instrutora de práticas contemplativas e mindfulness Bruna Andrade atua como voluntária, compartilhando a técnica com os alunos.

— Trouxe a ideia para o colégio e a diretora aceitou imediatamente. Desde março, aplico exercícios de mindfulness por uma hora para um grupo de adolescentes de 13 a 15 anos. Não é obrigatório, só faz quem quer — explica ela, lembrando que existem várias pesquisas que comprovam a utilidade do método no tratamento da depressão, da ansiedade e do estresse.

Durante a prática, que é acompanhada por uma música que tranquiliza, os adolescentes são guiados delicadamente pela instrutora, que chama a atenção para o ritmo da respiração, pede que eles tragam o pensamento para o presente e os induz a um relaxamento profundo.

— O meditador é um observador. Observa a respiração, o corpo, os sons e os pensamentos, que são como uma onda do mar, vêm e vão — orienta Bruna, que estimula o olfato, a audição, o paladar, a visão e o tato. — Sinta essa folha com seus dedos, toque de forma suave, porém atenta, observe a textura, explore a folha — propõe ela durante a prática, acompanhada pela reportagem.

Durante o exercício, alguns estudantes chegam a dormir. E já sentem no dia a dia os efeitos benéficos do mindfulness.

— Sou muito agitada, falo muito. Com a meditação, estou ficando mais calma e prestando atenção nos detalhes das coisas — diz a estudante Gabrielle Mesquita, de 15 anos.

Já o aluno Marcos Vinicio de Souza Costa, de 14 anos, passou a lidar melhor com o videogame.

— Moderei o tempo e, quando perco, fico mais tranquilo — reconhece.

Diretora do Pedro I, Andréa Leal está satisfeita com a novidade:

— Os alunos ficam mais focados na escola e aumentam o poder de observação. A meditação é um aprendizado para a vida.

Bruna é a prova viva dos efeitos benéficos da técnica. Formada em Marketing, fez carreira no mercado financeiro e trabalhou por 15 anos em diversos bancos. Depois de ter sua primeira filha, em 2010, seguiu conciliando as funções profissionais com o papel de mãe. Por causa do trabalho, passava muito tempo viajando, longe da família. A urgência de dar conta de tudo e a cobrança implacável foram tomando conta dela, que, simplesmente, entrou em colapso.

— Em 2013, desenvolvi um transtorno de ansiedade. Tive gastrite, não dormia bem, minha alimentação era irregular, não estava feliz. Resolvi abrir mão daquela carreira e ir embora para casa. Passei por um processo medicamentoso, comecei a fazer terapia, e o meu analista me indicou grupos de meditação.

E foi assim que Bruna viu sua vida mudar. A identificação com a meditação aconteceu de forma instantânea e a levou a conhecer outras vertentes do método, como o mindfulness, também conhecido como atenção plena. Além de se tornar uma praticante dedicada, fez um curso de especialização na PUC-Rio e passou a trabalhar como voluntária.

Gestora pedagógica da Escola Pedra da Gávea há quatro anos, Denise Martinez Pinto também é praticante de ioga e meditação há dez. No colégio, ela atua como facilitadora das práticas contemplativas e é a responsável por “nutrir” de informações os professores da escola, que proporcionam aos alunos, de 1 a 9 anos, momentos de ioga e de meditação.

— Não estipulamos um horário fixo, mas é preciso contemplar diariamente. O maior lucro da meditação é o autoconhecimento e a autorregulação. Eles aprendem a lidar com os sentimentos e a a ter maior controle das emoções desde cedo. Já tivemos o retorno de crianças que falaram assim: “eu estava nervoso e respirei” — relata.

Se na Pedra da Gávea o alvo são as crianças, no Colégio Bahiense são os adolescentes que estão no foco. A iniciativa partiu do professor de física e de matemática Thiago Narahari, que também é instrutor de meditação formado pela Escola Arte de Viver.

— Existem diversos tipos de meditação, do sol, da lua cheia, mindfulness. Ofereço uma técnica chamada meditação sem esforço. Para realizá-la, basta sentar com a coluna ereta e as mãos viradas para cima, fechar os olhos e guiar a respiração — diz o professor, que disponibiliza o exercício, que não é obrigatório, toda quarta-feira, durante o recreio, para os alunos do Ensino Médio. — Encontrei na meditação uma maneira de cuidar da saúde mental dos meus alunos.

Segundo o coordenador pedagógico do Colégio Bahiense, André Luiz de Souza Carnasciali, a resposta é positiva:

— Um aluno fala para o outro e a aula tem cada vez mais adeptos. No futuro, planejamos incluir a meditação na grade, a partir do Ensino Fundamental.

Especialista em Práticas Integradas Complementares e diretora do Instituto Brasileiro de Ayurveda (IBRATA), Ma Prem Ila acredita no poder da meditação desde a mais tenra idade.

— Músicas meditativas acalmam bebês — exemplifica.

No caso de adolescentes, que enfrentam uma rotina pesada de provas — principalmente aqueles que vão fazer o Enem —, o que gera muita ansiedade, Ma Prem Ila diz que quanto mais meditação, melhor.

— Melhora a capacidade mental de quem estuda e também auxilia pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH). A meditação atua de forma profunda na mente. E todos os tipos são válidos, não existe uma pior nem melhor.

Para quem não pode usufruir da meditação no ambiente escolar, a terapeuta integrativa sugere praticá-la em casa.

— Crianças a partir de 6 anos já podem começar com a orientação dos pais. Indico uma técnica simples, chamada Pranayama, que é a respiração pura. Grande parte das pessoas não sabe respirar. Ensinar a criança a respirar traz calma.

(Portal O Globo, 03/07/2018)

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support