João Santos Costa, jovem negro do povoado Sítio Alto, do município de Simão Dias, entregou o convite de formatura aos seus pais. Costa irá se formar em medicina dentro de algumas semanas. O formando é uma testemunha sobrevivente que contribui para a reflexão sobre a necessidade de ações afirmativas e de reparação de direitos, como a Lei de Cotas. O aumento da presença de jovens negros nas universidades durante os governos democráticos no decênio 2003-2013 foi de 287%, ainda muito distante do peso relativo dos negros no conjunto da população.

João Costa, de 24 anos, é uma verdadeira história de superação, pra inspirar! Quilombola, como se autointitula, ele acaba de concluir os estudos de medicina e será o novo médico do Povoado Sítio Alto, em Simão Dias, Sergipe.

“Negro, quilombola, filho de lavradores, nascido e criado na roça, filho do meio e integrante de uma família humilde composta por 11 irmãos e rodeada pela pobreza, chego ao fim de uma enorme batalha!”, conta o jovem, que estou na UFS – Universidade Federal de Sergipe.

João vai se formar no próximo dia 28 de agosto, na primeira turma de Medicina do campus de Lagarto da UFS. E se orgulha muito disso.

“Atualmente com 24 anos de idade, sou oriundo da cidade de Simão Dias-Sergipe, nascido e crescido no povoado Sítio Alto, uma comunidade autodeclarada quilombola, formada por descendentes de escravos e que desde sua criação foi assolada pela pobreza e por precárias condições de vida e moradia”, lembra.

Estudar

Mas o menino não aceitou aquilo como seu destino e decidiu estudar.

“Desde criança já sabia que para poder melhorar a minha condição social e a da minha família teria que sair do paradigma que era comum onde eu morava (trabalhar na roça para prover o sustento) e me aventurar no mundo da educação e do conhecimento”

Filho de pais analfabetos, ele lembra que a infância não foi fácil. Faltavam ítens básicos, como roupas e alimentos.

“Chegar na faculdade então? Uma utopia. Morava em uma comunidade em que poucos haviam chegado ao ensino médio, quiçá chegar à Universidade Federal’, diz.

João costa estudava e trabalhava na lavoura. Ele queria proporcionar uma vida melhor e menos sofrida à família e as notas boas que tirava na escola eram o incentivo que precisava para seguir adiante.

“Me destacava cada vez mais na escola, porque sabia que a única opção para uma ascensão social e financeira era por meio dos estudos”.

Escola Pública

Aluno de escola pública, ele ele agradece aos professores “que além de compartilharem seus conhecimentos científicos e materiais didáticos, compartilharam lições de cidadania, comportamento e empatia, e não menos importante, me prepararam para vida! Sem o apoio de cada um de vocês eu não poderia ter alçado meu voo e não teria chegado onde cheguei!

Aprovado com louvor no ensino fundamental e no médio, ele conseguiu o primeiro emprego no último ano do ensino médio.

Foi trabalhar durante meio turno na Promotoria de Justiça de Simão Dias, “um estágio remunerado conseguido por méritos e fruto do meu desempenho acadêmico na escola estadual Dr. Milton Dortas, lugar onde eu estudava na ocasião”.

O sonho dele era entrar na universidade, mas teve que lutar contra a inveja e o preconceito.

Preconceito

“Muitas vezes me questionava se seria possível, se eu era capaz. Recebi muitos comentários desencorajadores, de pessoas próximas inclusive, pelo fato de ser uma pessoa pobre, vindo da roça, negro e proveniente de escola pública. Conseguir cursar medicina? Muitos consideraram improvável! Mas Deus e o destino foram maravilhosos comigo”.

João conta que surgiram pessoas que o apoiaram, o incentivaram e “instigaram a provar para mim e para os incrédulos que eu conseguiria, e eu consegui!”, comemora.

Aos 17 anos ele passou em terceiro lugar, no curso de medicina da Universidade Federal de Sergipe, campus de Lagarto, “curso que estou terminando com louvor e colhendo os frutos da minha dedicação e empenho.”

Foram 6 longos anos de estudo, com dificuldades “já que o sustento [da família] ainda é provido pelo trabalho na roça e por benefícios sociais de distribuição de renda.

Enfrentar dificuldades

Nesse período o estudante se inscreveu no programa de residência universitária disponibilizado pela UFS e na bolsa permanência disponibilizada pelo MEC.

“Tenho o orgulho de dizer que não estressei meus pais com despesas nesses anos longe de casa”, diz.

“No pouco que vivi aprendi que quando as dificuldades baterem na sua porta deixe-as entrar! Nada melhor que os desafios para instigar a evolução humana. Acredito que se eu não tivesse tantas dificuldades não estaria me graduando em medicina, curso ainda elitizado e estereotipado em nossa sociedade”.

“Hoje tenho orgulho de dizer que graças aos meus esforços e ao apoio de pessoas maravilhosas o negro saiu da “senzala”, o pobre saiu da roça e o aluno de escola pública está se formando em medicina em uma Universidade Federal”, conclui.

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