Com passos de balé, Letícia Tavares, 12 anos, enche o palco de alegria. Mesmo tímida, consegue arriscar alguns movimentos e se adaptar à melodia da música. Depois de algum tempo, o lado dançarina dá lugar ao lado artista, e a menina se veste dos pés à cabeça como personagem de desenho animado para mostrar que também é capaz de atuar. Logo ali, na plateia, a mãe acompanha tudo com brilho nos olhos. “Ela adora transformar a imaginação em realidade”, diz a funcionária pública Laudiceia Cerqueira, 51 anos.

Letícia é uma das cerca de 40 pessoas assistidas por um projeto social de Samambaia que usa a dança e o teatro para aproximar crianças, adolescentes, adultos e idosos com algum tipo de deficiência do convívio social. Criado em 2008, o Dançart’Especial surgiu para ser uma ferramenta de inclusão e transformação de um público que é, muitas vezes, preterido pela sociedade. “A única coisa que eu quero é dar a eles a vida que eles merecem. Estou aqui para conduzi-los a alcançar esse espaço na comunidade. O mundo também lhes pertence. Os sonhos deles são tão importantes quanto os de qualquer pessoa”, destaca a idealizadora do projeto, a professora Sônia Ramalho, 50.

Tudo começou em 2008. Movida pelo desejo de ajudar pessoas com alguma limitação física ou mental, Sônia usou a especialização em dança para dar início ao projeto. Até 2018, ela fazia tudo com o dinheiro do próprio bolso. Neste ano, contudo, conseguiu o financiamento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF) para tocar o Dançart’Especial.

“Nesses 11 anos, vivi muitos momentos de incerteza. Cheguei a duvidar se seria capaz de dar sequência ao projeto. Mas nunca perdi a vontade de montar os roteiros e ensiná-los a dançar. Hoje, vê-los felizes e prontos para se apresentarem em qualquer lugar é a minha maior felicidade. Não há nada que pague isso. A minha vida é este projeto”, admite Sônia.

Periodicamente, os alunos saem do Centro de Ensino Especial 1 de Samambaia, onde acontecem os ensaios, para apresentar musicais e peças de teatro em escolas, universidades e teatros do DF. O catálogo de espetáculos do Dançart’Especial é recheado: Cantando na Chuva, Romeu e Julieta, Branca de Neve e os Sete Anões, O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes, Cinderela, A Bela Adormecida, Titanic e A Paixão de Cristo são apenas algumas das obras já performadas pelo projeto.

“A cada apresentação, é uma emoção diferente. Não há um evento em que os alunos não sejam aplaudidos. Eles são muito queridos em todos os lugares que passam. Esse reconhecimento é revigorante, pois o nosso trabalho não é fácil. Funciona como um impulso para continuarmos lutando”, afirma Sônia.

Para ir além

O projeto, contudo, não se restringe ao aperfeiçoamento de habilidades na dança e no teatro. Dentro das aulas, Sônia e os monitores auxiliam os alunos a aprimorarem aspectos cognitivos, como a assimilação de cores, letras e números, além da corporeidade. “A diversidade de alunos também é importante. Cada um aprende um pouco com o outro. Isso contribui para que eles não se sintam excluídos. Todos eles têm algo a ser destacado: a vontade de viver”, conta Laudiceia, enquanto observa a animação de Letícia.

A preocupação dos professores é tanta que eles ensinam coisas mais simples aos alunos, como escrever o próprio nome. Que o diga Vera Lúcia de Sousa, 38. “Aprendi a escrever para dar autógrafos no fim das apresentações. Esse é o momento mais feliz para mim”, confessa a aluna. Nas aulas, Vera Lúcia é uma das mais entusiasmadas. Mexe os braços e as pernas em sintonia com o ritmo das canções e sempre puxa algum colega para acompanhar os seus passos. “Eu também ajudo os professores a escolherem o figurino e a montarem os cenários. Tudo tem que estar bonito”, lembra.

Agora, Vera Lúcia vive a expectativa do próximo grande espetáculo do Dançart’Especial: em novembro, ela e os amigos apresentarão um musical em homenagem a Charlie Chaplin. “Tenho muita vergonha, mas, quando subo no palco, esqueço de tudo. Na hora que começa, eu sempre me dou bem. Estou ansiosa por este momento”, garante.

Gratidão

Há apenas um mês e meio como monitor no projeto, o professor Paulo Gomes, 33, celebra a participação na iniciativa. “A cada aula, eu me surpreendo. Trabalhar com esse público é transformador. Mudou todo o meu pensamento pedagógico e didático de como lidar com o desenvolvimento de uma pessoa com deficiência. A partir do nosso estímulo, eles conseguem coisas que imaginavam nunca serem capazes de realizar. Isso é fantástico”, analisa.

Para Paulo, o lado mais interessante de participar de um projeto social como o Dançart’Especial é conduzir os alunos à excelência sem nunca desrespeitar as suas particularidades. “Aqui, os ensinamos a encontrar um caminho e não impomos nada. Quando a arte é feita com sentimento, fica eterna. Aqui, existe muito carinho. Todos se gostam e se cuidam. Quando o trabalho acontece assim, não tem como dar errado”, pontua.

É o mesmo que diz Wallace Gomes, 27, um dos alunos há mais tempo no projeto. Não perde uma aula sequer, desde quando era um adolescente de 16 anos. “Fui muito bem acolhido desde o início. Antes, não sabia quase nada, mas hoje, sou quase um professor de dança”, ressalta. Wallace diz que encontrou no espaço uma segunda casa e uma segunda família. Isso fica claro ao vê-lo durante os ensaios: ele não tira o sorriso do rosto e é o principal incentivador dos colegas.

Dançart’Especial

Oficinas gratuitas às segundas e sextas-feiras (das 8h às 8h45, das 9h às 9h45, das 10h às 10h45, das 14h às 14h45, das 15h às 15h45 e das 16h às 16h45) e aos sábados (das 9h às 9h45, das 10h às 10h45 e das 11h às 11h45). Pessoas com alguma deficiência física ou mental a partir de 5 anos podem se inscrever por meio do site: http://dancartespecial.com.br. Mais informações com a idealizadora do projeto, Sônia Ramalho, no telefone 9.8478-9052.

(Correio Braziliense, 18/03/2019)

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