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Um número que retrata a infância de grande parte dos brasileiros: 40% das pessoas em situação de pobreza no país são meninos e meninas que têm até 14 anos de idade. E, na maior parte das vezes, condenados a repetir o mesmo padrão econômico dos pais.

Se elas representam o futuro, então o futuro não parece nada promissor. A nova edição do Cenário da Infância e da Adolescência no Brasil, lançado pela Fundação Abrinq, é uma fotografia da população entre zero e 19 anos, que representa 33% da população do país.

O estudo mostra que 17 milhões de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos vivem em situação familiar de pobreza. Quase 1,6 milhão de jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Em 2016, 500 mil meninas entre 10 e 19 anos tiveram filhos. E o que também é muito grave: 2,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham.

“Na verdade, ela não tem que estar nem na rua, no farol vendendo bala, e nem tem que estar em outro tipo de trabalho infantil. A criança tem que ser criança, tem que estudar, tem que brincar. E depois ela vai ter a vida inteira para ser adulta”, afirma Heloisa Oliveira, administradora executiva da Fundação Abrinq.

É uma triste realidade que o Brasil ainda não consegue transformar em passado. Visitando bairros pobres, percebe-se que o poder público faz muito pouco no local, muito menos do que deveria. E que das crianças que nascem e crescem nesse ambiente, algumas vão ter uma chance de ter um futuro melhor, graças à solidariedade da sociedade civil, da atitude de voluntários.

Gente como Daniel, que nasceu e cresceu num dos bairros mais violentos de São Paulo. Cansado da ausência do poder público, ele criou uma ONG onde hoje 100 crianças e adolescentes passam metade do dia, antes ou depois de irem à escola. O projeto tem o apoio do Criança Esperança. No local, elas aprendem brincando, se divertindo.

“Eu acho muito bom, porque a gente brinca, a gente come e aproveita mais, faz mais amigos”, conta Isabelle Dias Ribeiro, de 10 anos.

“A gente cria alguns projetos, então a nossa mente funciona como crianças, não pensando lá fora: nossa, o que pode acontecer comigo? Sabe, então a nossa mente fica mais aberta aqui”, comenta Bárbara de Jesus Silva, de 11 anos.

Para Daniel Neves de Faria, fundador da Orpas, o desafio é fortalecer os bairros das periferias: “Que seja conhecida as periferias, pela produção cultural, pela visão empreendedora, pela resiliência que esse povo tem. Não é um povo carente, é um povo potente que precisa de oportunidade”.

O filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca elogia as ONGs como a de Daniel. Mas diz que, sozinhas, elas não dão conta diante da quantidade de crianças em situação de pobreza no país: “A resposta fundamental passa por uma reorientação dos gastos públicos no Brasil. Mas isso vai demandar governos com prioridade certa e compromisso de executar com eficiência políticas públicas bem orientadas. Infelizmente, o Brasil ainda está muito longe de chegar nisso”.

(Jornal Nacional, 23/04/2018)

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