Alunos da Escola Estadual de Educação Profissional Lucas Emmanuel Lima Pinheiros, localizada em Iguatu (CE), encaram de frente um problema existente na instituição: os altos índices de bullying e violência. E implantam o “Não Bullying Comigo!”, projeto transformador de atitudes orientado pelo professor de filosofia e sociologia, Leilson Oliveira.

Para acabar com o problema identificado pelos estudantes, ao longo de 2016 e 2017, foram criados espaços de diálogo e reflexão e desenvolvidas várias atividades que incluíram a aplicação de questionários, leitura de livros, oficina de poesia, a Semana do Abraço, entre outras ações, todas visando melhorar o convívio escolar e gerar empatia.
Para a aluna Tamara da Silva Couras, do 2º ano do Ensino Médio, o projeto estimulou a proatividade e trouxe à tona vozes reprimidas: “muitas vezes aconteceu de eu me ver numa situação de bullying e simplesmente me calar, o que acabava contribuindo pra que aquilo se repetisse. Quando nos calamos, estamos de certa forma apoiando o agressor. Hoje eu me vejo como uma pessoa mais ativa para me manifestar e tentar ajudar uma vítima, conversar com o agressor e perguntar o porquê de tal ato”.

Mudanças de comportamento
De acordo com o orientador do projeto que foi finalista do Desafio Criativos da Escola 2017, “o primeiro impacto foi fazer com que os alunos se percebessem nas relações que tinham entre si”.

Com frequência, quem pratica o bullying não percebe o mal que está causando. João Vitor de Lima, também aluno do 2º ano, afirma que o projeto mudou totalmente sua visão: “para mim, era uma brincadeira de mau gosto que eu fazia com o meu colega. Ele não ria, eu ficava rindo com as pessoas que participavam do ato. Não via que aquela violência estava afetando aquele colega, que estava machucando por dentro”.

Foi através de uma dinâmica que João, hoje responsável por toda mídia digital do “Não Bullying Comigo!”, compreendeu a gravidade do dano. Ele e outros participantes foram convidados a pegar uma folha de papel e amassar. “Tente desamassar. É igual à pessoa que sofreu o bullying, você acha que ela volta ao normal depois da agressão? Nunca vai voltar ao estado que estava, sempre vão ficar sequelas e feridas”, alerta.

Gerando empatia
O nome da iniciativa (“Não Bullying Comigo”) é uma analogia à expressão “bulir” (mexer, provocar), tão característica da região nordestina. Pois, segundo seus integrantes, foi exatamente esse o efeito que o projeto gerou na comunidade escolar: provocação, mas numa conotação positiva.
“É inegável que existe a cultura do bullying, e que está enraizada no nosso país. A gente não é ensinada a ter empatia, a pensar antes de falar, a refletir o quanto as palavras podem significar muito para algumas pessoas, ao mesmo tempo que, para você, talvez, não signifiquem tanto”, observa Tamara, para quem o grande aprendizado foi conseguir se colocar no lugar de outras pessoas e propagar sentimentos bons.

Destaque entre as ações do projeto, palestras itinerantes em salas de aula esclareceram o que é o bullying, quais são os tipos de agressão, as diferenças entre as vítimas e o conceito de cultura de paz. “Meus amigos e eu vimos que o que fazíamos com um colega tímido não fazia bem pra ele e, desde então, essa e outras situações vêm sendo mudadas”, afirma Ronildo Carneiro, do 1º ano do Ensino Médio. Para ele, o resultado positivo decorre da união de forças entre todos: “o projeto abriu uma porta para mostrar que as pessoas não estão sozinhas e que, juntas, podem fazer com que essa prática acabe”.

E falta pouco! “Na nossa escola, o bullying caiu 90%”, observa João Vitor. “A gente ainda tem aqueles 10% de ocorrência por parte de alunos que entraram agora, que vêm de escolas do Ensino Fundamental sem nenhuma base em relação à cultura de paz”, observa Ronildo.

Segundo o grupo, o excelente resultado é apenas o começo. “O combate à violência nas escolas deve ser diário”, ressalta o professor Leilson. Para ajudar na missão, um aplicativo está sendo desenvolvido pelos estudantes para proporcionar a alunos do Ensino Fundamental o contato com temas como racismo, xenofobia, violência na escola, entre outros. O objetivo é que o material se torne uma cartilha de orientação também para pais, coordenadores, professores e funcionários. O acesso será gratuito para a implantação de atividades em escolas municipais.

Outra boa notícia é que o projeto prevê continuidade e expansão. “Nós queremos ampliar para outras escolas e intensificar as ações na nossa. Entendemos que não podemos deixar projetos acabarem e sim lutar para transformá-los em políticas. Esse ano já recebemos os alunos novatos e aplicamos as primeiras metodologias, estamos em fase de condensar os dados. Recentemente, um grupo de meninas veio me procurar falando sobre relações abusivas entre namorados na escola”, celebra o professor.

(Criativos da Escola, 17/05/2018)

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