Levar informação sobre a história de resistência dos africanos escravizados no Brasil e a luta deste povo pela igualdade. Este é o objetivo do grupo de dança Fulores de Palco, da Escola de Referência em Ensino Médio de Beberibe, com o espetáculo Navio Negreiro, que estreou no dia 7 de novembro, no Teatro de Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.

A peça, livremente inspirada no poema de Castro Alves Navio Negreiro, utiliza a técnica do teatro de sombras corporais, a percussão, a música, arte plástica, dança e canto para retratar o cotidiano das aldeias africanas, o navio negreiro, as crenças e os ritmos do povo negro. Cerca de 35 estudantes se revezam entre as coreografias no tempo de uma hora de espetáculo. Para a execução do trabalho, o grupo contou com a parceria da ONG Somos Professores.Org, que possibilita aos educadores fazer uma vaquinha virtual para captação de recursos financeiros para a realização de projetos pedagógicos.

O projeto é coordenado pelas professoras Ediane Cavalcanti e Lilian Kellen, de educação física e artes. Elas trabalham juntas na preparação do corpo e na produção cênica dos trabalhos. Ediane relata que a produção da peça durou um ano e meio. “Neste período, a gente se preocupou em sensibilizar os participantes para que compreendessem o tema abordado. Para isso, apresentamos vídeos, músicas, fotos e livros aos alunos antes de iniciar o processo de coreografia”.

O grupo Fulores de Palco realiza, desde 2011, diversas ações na comunidade escolar. Atualmente, conta com 40 participantes, distribuídos entre dança, produção, fotografia e percussão. Nos setes anos de existência, a equipe apresentou diversos trabalhos, entre eles, o espetáculo Recriando as Raízes do Brasil (2014), apresentado dentro e fora do estado. O estudante João Matheus, 18, participa do grupo há dois anos e explica que o projeto contribuiu diretamente no combate aos preconceitos e outras discriminações dentro da escola. “Ele possibilitou que a gente mostrasse aos colegas e familiares como é rica a nossa cultura e que o conhecimento nos libera das correntes daignorância”. O bailarino e professor de danças, Arylson Matheus, 20, participou da primeira turma e conta que o projeto possibilitou a abertura de novas oportunidades em sua vida. “Foi através do Fulores que eu decidi seguir a área artística. Todas as aprendizagens que adquiri no projeto busco multiplicar para os meus alunos no cotidiano”.

O sociólogo, psicólogo, mestre e doutorando em ciências da religião, Constantino Melo, que atua como técnico da Gerência Regional Recife Norte, também colaborou na construção do roteiro da peça. Ele explica que o trabalho está fundamentado em três leis federais, são elas: 10.639/03 que trata sobre a história da cultura afro-brasileira; 11.645/08 que legitima a obrigatoriedade da história e cultura afro e indígena e a lei 12.288/10 que legitima o estatuto da igualdade social.“Nós enxergamos a escola enquanto espaço de construção do conhecimento. Esse espetáculo tem o intuito de construir um conhecimento pedagógico que trouxesse esclarecimentos para qualquer escola através de um trabalho itinerante”.

Na primeira apresentação, estiveram presentes cerca de 500 convidados, entre amigos, familiares, estudantes, ex-estudantes, professores, gestores da rede pública estadual e representantes da Secretaria de Educação. De acordo com as coordenadoras, o coletivo pretende conseguir parcerias para propor uma turnê de apresentações nas escolas de Pernambuco.

(Diário de Pernambuco, 10/11/2017)