Metade das escolas públicas do Distrito Federal trabalha com os alunos temas que visam discutir a realidade dos crimes contra as mulheres. Meninas e meninos aprendem, entre outras coisas, a identificar o machismo e uma relação abusiva.

O combate ao feminicídio começa na sala de aula. Trabalhar o assunto nas escolas faz com que crianças e adolescentes identifiquem relações abusivas, percebam a violência cometida dentro de casa e evitem o machismo. Essa é a percepção de especialistas que sugerem o fim da violência doméstica com investimento em educação, consciência de novas gerações sobre a valorização da mulher e debate de igualdade de gênero.

Só na última semana, em menos de 48 horas, maridos e ex-companheiros assassinaram Marília Jane de Sousa Silva, 58 anos, Carla Graziele Zandoná, 37 e Adriana Castro Rosa Santos, 40. Desde o início do ano, houve 19 feminicídios, a mesma quantidade de 2017 inteiro. Debater o efeito desse fenômeno com novas gerações evita que meninos e meninas cresçam e reproduzam a violência.

Ao menos a metade das escolas da rede pública do Distrito Federal promove a discussão sobre a violência de gênero por meio de projetos interdisciplinares, como Mulheres Inspiradoras e Maria da Penha vai às Escolas. As ações mobilizam docentes, servidores da educação, estudantes e o Judiciário. Mas a percepção de professores é que a resistência dos pais a respeito do tema dificulta um trabalho integrado na escola e em casa.

Direcionado a alunos do ensino médio, o Maria da Penha vai à Escola começou como um projeto-piloto sobre combate à violência, em 2014. O objetivo é apresentar para a comunidade os diversos modos de violência de gênero e como acionar instrumentos de proteção e denúncia. “Os alunos aprendem o papel das delegacias, promotorias e juizados. É importante não só para as meninas, que aprendem a identificar uma relação abusiva, mas também aos garotos, ensinados a como não construir suas masculinidades de maneira tóxica ou nociva”, afirma Ruth Meyre, diretora substituta da Diretoria de Educação do Campo Direitos Humanos e Diversidade da Secretaria de Educação.

O projeto está presente em mais de sete regionais de ensino. O que o impede de crescer ainda mais é uma resistência que vem de fora das escolas. “Quando é apresentado um projeto sobre combate à violência doméstica, todos são bastante abertos. A barreira é levantada quando falamos das questões de gênero”, explica Meyre. A professora afirma que os temas estão interligados: “Percebemos que o empecilho em debater gênero é que as pessoas estão preenchidas por posições preconceituosas e equivocadas sobre o significado do tema. Discutir gênero ajuda a entender como o machismo patriarcado está diretamente ligado à violência sofrida pelas mulheres, e não dá para falar de um problema (violência doméstica) sem chegar à origem.”

Formação continuada

Apesar dos esforços e das iniciativas de alguns docentes, falta formação continuada para que as ações aconteçam. Essa é uma percepção da professora Gina Vieira, autora do projeto Mulheres Inspiradoras. A proposta se expandiu e, em 2017 se tornou política pública. Hoje atinge 41 escolas, mas, segundo a docente, é necessário um conjunto de ações para que essas iniciativas se tornem mais efetivas. “O que sinto com o projeto Mulheres Inspiradoras é que são poucas as formações voltadas para questões de gênero. É importante qualificar o debate do professor, para que ele atue nessas questões com mais lucidez, convicção e força para lidar com as dificuldades que aparecem”, comenta (Leia Quatro perguntas para).

Professora de história há 17 anos e especialista em políticas públicas sobre gênero e raça, Vilmara do Carmo reforça que professores têm interesse em levar o assunto sobre violência de gênero para dentro de sala de aula, mas não sabem como, porque, na formação inicial acadêmica, não receberam preparo. “É importante capacitar a categoria a respeito de como trabalhar o assunto. Temos processos de formação continuado no Eape (Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação), mas essa força-tarefa precisa ser descentralizada e regionalizada. Quando temos acesso à quantidade dos educadores que tiveram a experiência, vemos que regionais ficaram de fora”, destaca.

O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino Distrito Federal (Aspa/DF), Luis Claudio Megiorin, afirma que os pais não são contrários ao debate sobre violência doméstica nas escolas. “O que a maioria não concorda é com as discussões sobre ideologia de gênero em sala de aula. Entretanto, falar sobre respeito à mulher e valorização do papel feminino é algo a que somos favoráveis e inclusive acreditamos que deve ocorrer desde pequeno, na escola e em casa”, defende.

Sobre o modo de debater a violência doméstica, Luis Claudio acredita que é necessário cautela. “Temos que ter muito cuidado ao falar sobre machismo e feminismo, porque são coisas que se chocam muito. As escolas precisam ter cautela para não reforçar estereótipos nas crianças”, aponta.

A sugestão de Vilmara, porém, é contrária à de Luis Claudio. Para ela, que também é coordenadora da Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF), é importante trabalhar a educação de gênero nas escolas sem que haja o conservadorismo de separar brinquedos de meninas e de meninos nem a pintura de cores azuis voltadas aos garotos e rosa, para as meninas. “Temos uma sociedade machista, desigual, que naturaliza essas desigualdades entre homens e mulheres. Se a gente não trabalha com o objetivo específico de combater essas diferenças, essas condições vão permanecer se perpetuando. Precisamos que a escola diga não a essa situação”, observa a professora.

Quatro perguntas para Gina Vieira, professora e autora do projeto Mulheres inspiradoras

Qual a importância de se levar o debate da violência de gênero para as escolas?
O impacto da cultura que naturaliza a violência contra a mulher na comunidade, nas representações midiáticas, nos espaços sociais; a escola é o local onde a criança e o adolescente podem refletir sobre essas questões de maneira crítica. Uma criança que convive com essa violência dentro de casa acha natural, porque ela própria enfrenta essa condição na família. Inclusive, existe uma série de dispositivos legais que nos apoiam e nos amparam para trabalharmos esse assunto, começando pela Constituição, que rege a educação como dever da família e do estado. Em âmbito do Estado, é importante investir em uma educação que promova a formação desses valores plurais para que possamos desconstruir essa cultura machista e violenta em relação à mulher.

Como trabalhar o assunto nas salas de aula?
A pior tragédia é impor aos alunos crenças, valores, mesmo os plurais. A melhor forma é que o trabalho aconteça com o diálogo, em um modelo horizontal, democrático, fazendo com que os estudantes apresentem seus saberes prévios. Quando começamos a trabalhar o projeto Mulheres Inspiradoras, iniciamos a partir daquilo que os alunos sabiam de violência contra a mulher, o que eles assistiam sobre a forma com que elas são apresentadas na televisão e a representação do feminino. Trata-se de um processo de fortalecimento de um pensamento mais crítico, dialogado com jovens.

O governo tem tratado esses temas como política pública ou são projetos resultantes de iniciativas de alguns professores?
Há duas concepções de educação que tensionam muito. Há quem ache que o papel da escola é apenas ensinar conteúdos formais e outros que comungam de um pensamento mais amplo, humanizado. Para muita gente, trabalhar temas como esses é irrelevante, por falta de conhecimento, de resistência de professores e da família. Mas a proposta política pedagógica da rede sinaliza que esses temas devem ser trabalhados. Precisamos de um conjunto de ações para que esses projetos se tornem mais efetivos. O que sinto com o projeto Mulheres Inspiradoras é que são poucas as formações voltadas para questões de gênero. É importante qualificar do debate do professor, para que ele atue nessas questões com mais lucidez, convicção e força para lidar com as dificuldades que aparecem.

Qual o principal caminho para acabar com a violência contra a mulher?
A educação é um dos principais caminhos, mas é preciso falar de outros. De políticas públicas efetivas voltadas para meninas e mulheres. É recorrente, por exemplo, que as garotas em maior situação de vulnerabilidade social se casem mais cedo. Precisamos combater essa prática com escola em tempo integral, por exemplo, para formação de meninos e de meninas, e que dê a eles experiências de acesso à cultura, ao lazer, ao esporte. Voltado às mulheres, são poucas as creches para as mães poderem deixar seus filhos enquanto trabalham. Portanto, não existe uma única ação que resolva o problema da violência de gênero. A educação é algo perene e mais consistente que vai mudar o comportamento de novas gerações, e ensinar que as meninas não devem se subalternizar e que os meninos não devem agredi-las.

(Correio Braziliense, 12/08/2018)

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