Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

“Meus filhos todos estudaram em boas escolas públicas”, revelou o grande empresário numa conversa de elevador, para espanto dos demais passageiros, após uma reunião para discutir os caminhos da educação brasileira. E, em seguida, esclareceu, com um sorriso: “Nos Estados Unidos, é claro…”

Foi-se o tempo em que as melhores escolas brasileiras eram públicas. Mas não é preciso ir tão longe para encontrar um exemplo de qualidade para todos, e não só para filhos de empresários.

“Meus filhos todos estudaram em boas escolas públicas”, revelou o grande empresário numa conversa de elevador, para espanto dos demais passageiros, após uma reunião para discutir os caminhos da educação brasileira. E, em seguida, esclareceu, com um sorriso: “Nos Estados Unidos, é claro…”

Foi-se o tempo em que as melhores escolas brasileiras eram públicas. Mas não é preciso ir tão longe para encontrar um exemplo de qualidade para todos, e não só para filhos de empresários.

Como nos EUA, onde os alunos, seus pais, vizinhos, empresas e igrejas zelam pelas escolas, em Embu-Guaçu a educação pública não depende só dos recursos do estado.

Das 5.400 escolas estaduais, que têm 3,4 milhões de alunos, 20 ficam na cidade-dormitório de 68 mil habitantes.

Com pontuação acima da média no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar no Estado de São Paulo (Saresp), a escola estadual Paschoal Carlos Magno, a mais antiga da cidade, vai completar 70 anos em 2019, mantendo a tradição: os professores são em grande parte ex-alunos.

Em 2016, a escola foi a vencedora regional de São Paulo na 11ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, com o projeto “Entre o sonho e a realidade”, desenvolvido em parceria com o Movimento Renovador Paulo VI, que discutiu nas salas de aula os problemas da cidade.

Para entender essa história, é preciso recuar no tempo e contá-la desde a chegada em Embu-Guaçu de Frei Henrique de Pirassununga, primeiro vigário da Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus.

O nome civil desse franciscano era Ângelo Verrussa Balduin. Um ano após chegar, ele criou o movimento, em 1968.

Dona de um escritório de contabilidade, a família de Lauro Yoshida assumiu o projeto que formaria a primeira turma do Mobral, programa de alfabetização de jovens e adultos, em 1970.

No salão paroquial, foi criada a primeira pré-escola. A PUC-SP deu assessoria para a criação da primeira creche, cuja implantação foi assumida pela comunidade, em 1978, em parceira com a LBA (Legião Brasileira de Assistência).

Com dezenas de outros convênios, trabalhos voluntários, ajuda de empresários e doações de igrejas da Alemanha e dos Estados Unidos, o Paulo VI não parou de crescer.

Dos EUA, em 1981, chegou o padre Thomas Francis Brown, ex-marinheiro que por dez anos cuidou de projetos educacionais e de famílias vulneráveis. Com o apoio da comunidade americana, continuou dando assistência ao movimento, ajudando a ampliar os espaços do Lar Irmã Inês.

Aos 18 anos, Maria Inês Conselles deixou o convento na Bahia e foi trabalhar com crianças abandonadas na zona leste de SP. Foi para a cidade em 1967, quando recebeu em doação um sítio onde plantou uma escola. Em 1968, em parceria com a família do empresário Luís Isamu Kukita, iniciou as obras do orfanato de meninas, onde hoje funcionam cursos profissionalizantes.

Outra irmã, Irmgard Fides saiu da Alemanha após da Segunda Guerra e, na década de 70, aportou em Embu-Guaçu para implantar o programa socioeducativo “Crê-Ser”. Ex-bailarina, ajudou a formar grupos de dança e a ensinar música às crianças.

Também com a ajuda da família Kukita, Irmgard ergueu o primeiro ginásio de esportes da cidade. Ao voltar para a Alemanha, em 2014, conseguiu os recursos para a construção da Escola João Paulo II.

Maria Vani Pedroso de Oliveira é diretora do núcleo profissionalizante que leva o nome da religiosa e faz questão de dizer que ali não se educa apenas para o mercado de trabalho, mas se ensina valores para formar cidadãos conscientes os 240 alunos por ano.

“Hoje as empresas vêm procurar os nossos alunos, nem esperam a formatura”, diz ela.

É o caso de Paloma Andrade, 20, que passou pelo Projeto “Crê-Ser”, fez o curso profissionalizante e começou como aprendiz na União Química.

Paloma cursa agora a faculdade de enfermagem, com bolsa 100% do Prouni, e já trabalha em um hospital. “Minha formação de caráter foi toda construída aqui dentro. Foi aqui que aprendi a respeitar os mais velhos. Ficava o dia inteiro na escola. A base de tudo é o amor envolvido nas pessoas que me ensinaram.”

Deborah Martini, diretora da escola estadual Paschoal Carlos Magno, ensina o segredo com uma frase de Paulo Freire, mestre da educação brasileira: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

Do outro lado da rua, Jamilson Roberto Aragão, cuida de 200 crianças de 6 a 14 anos do projeto “Crê-Ser”, que no contraturno têm reforço escolar e cursos como contação de histórias a capoeira, de graça.

Jamilson estudou no Paschoal Carlos Magno até o magistério, entrou para o Movimento Renovador Paulo VI e não saiu mais. “Este foi meu único emprego na vida. Me sinto feliz neste lugar.”

É isso que mais chama a atenção nas conversas com as pessoas envolvidas nos projetos educacionais em Embu-Guaçu: todos parecem satisfeitos com o que fazem.

Agora, por exemplo, estão envolvidos com a organização do dia nacional de combate à exploração sexual de crianças, em 18 de maio, quando os alunos vão apresentar o que aprenderam nas aulas e oficinas das escolas. Paulo Freire iria gostar. Para ele, a educação era baseada na realidade da vida. Não tem milagre: educar dá trabalho, mas, se todos ajudarem, fica mais fácil. Em Embu-Guaçu, deu certo.

(Folha de São Paulo, 15/05/2018)

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support