A unidade sonha com o dia em que poderá atender, com estrutura digna e adaptada, a todos os surdos do DF.

Neste lugar, zombarias e toda espécie de preconceito dão lugar à alegria. Na Escola Bilíngue Libras e Português Escrito — primeira e única do Distrito Federal —, Gabriel, Mayra e Ana Caroline encontraram o refúgio de que tanto precisavam. Com 120 alunos deficientes auditivos, a instituição é pública e foi inaugurada em 2013, após anos de luta da comunidade surda brasiliense. Localizada em Taguatinga, a unidade sonha com o dia em que poderá atender, com estrutura digna e adaptada, a todos os surdos do DF.

Os três jovens retratados acima são absolutamente normais. Eles têm anseios, sonhos e preocupações. Além de namorar, precisam lidar com os problemas cotidianos e, para ser aprovados na escola, são obrigados a estudar muito. A única coisa que os difere da maioria dos adolescentes é a surdez. Total ou parcial, ela ainda cria barreiras sociais e impede que Gabriel Oliveira, 21 anos, Mayra Pessoa dos Santos, 17, e Ana Caroline dos Santos, 18, se comuniquem normalmente. Apesar de estarem adaptados à deficiência, eles revelam que o preconceito é grande e começa dentro de casa. No caso dos três, a família não sabe se comunicar em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais).

“No passado, a minha família me obrigava a falar, coisa que é difícil para mim. Eles não aceitam a minha língua, que é Libras. Eu penso que o dever da minha família é ajudar e entender, afinal, eu sou surdo”, desabafa Gabriel. Para o morador de Sobradinho, que sonha em ser professor de educação física, a vida de um deficiente auditivo não é nada fácil. Ele nasceu ouvinte, ou seja, livre da surdez. Aos 2 anos, uma meningite começou a causar problemas, que, no futuro, tirariam dele a capacidade de escutar. “Fiquei três meses internado e, quando tinha entre 3 e 4 anos, a comunicação começou a ficar difícil. Quando completei 8 anos, os médicos detectaram a surdez”, lembra o maranhense.

Acostumado a lutar por um espaço em meio à própria família, ele faz questão de salientar que encontra aconchego quando está na escola. Para isso, ele acorda todos os dias às 4h30 da manhã. O esforço é para chegar, pontualmente, no horário em que a primeira aula começa, às 7h30. O carinho pela instituição encontra explicação quando o jovem explica a diferença entre uma escola bilíngue e uma escola de inclusão. Na inclusão, os estudantes frequentam colégios regulares. Nesse caso, eles têm acesso a um intérprete, que fica ao lado do professor. O papel dele é traduzir para Libras tudo o que é dito pelo educador. Verbos, equações matemáticas e cálculos físicos precisam passar pelas mãos do intérprete.

No caso da inclusão, segundo os estudantes surdos, a dificuldade é extrema. “É muito pesado. Quando fazia parte da inclusão, eu tinha muitas dúvidas e, mesmo com o esforço das pessoas, a comunicação era limitada, não tinha interação”, opina Mayra, aluna do 1º ano do ensino médio. No caso da escola bilíngue, os professores conhecem e ensinam em Libras. Eles se comunicam diretamente com os alunos, o que facilita a compreensão e o convívio entre eles. “Aqui é bem diferente. Eu me desenvolvo melhor e me sinto aceita”, conta a menina, que sai todos os dias de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, para ter a chance de estudar e aprender em sua própria língua.

Falta de estrutura
A Libras é a primeira língua dos deficientes auditivos. Para eles, é como se ela fosse a língua materna, e a segunda, que funciona como uma língua estrangeira para pessoas ouvintes, fosse o português escrito. Por isso, os surdos sentem dificuldade em aprender os pormenores do português, como verbos, pronomes, substantivos e adjetivos. Como explica Gisele Morisson Feltrini, supervisora pedagógica da Escola Bilíngue Libras e Português Escrito, as chamadas classes bilíngues dão aos surdos a possibilidade de se sentirem confortáveis e plenamente felizes. “A sala de aula bilíngue é o lugar onde eles se sentem bem, por conseguirem se comunicar de igual para igual. Na prática, eles acabam aprendendo uns com os outros.”

Em Taguatinga, são cerca de 60 professores habilitados e fluentes em Libras. A unidade de ensino oferece aulas para todas as etapas: educação infantil, ensinos fundamental e médio e educação de jovens e adultos. O ambiente, colorido e repleto de cartazes em Libras, emana satisfação, tanto dos alunos, quanto dos professores e colaboradores. “A escola é adequada para o estudante surdo. Ele é o nosso foco. Aqui, eles encontram as mesmas condições de acesso ao conhecimento que uma pessoa ouvinte”, pontua Gisele.

Além das turmas integrais para deficientes visuais, a instituição conta com turmas do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, constituídas por alunos que escutam normalmente. As classes regulares são resquício da antiga escola que funcionou no local até a inauguração da instituição bilíngue, a Escola Classe 21. Os alunos remanescentes são cerca de 250 e continuam na unidade, convivendo e aprendendo com as diferenças. A ideia dos coordenadores é de, aos poucos, tornar a unidade de ensino exclusiva para os deficientes visuais.

Mesmo com todo o amor oferecido pelos educadores, a escola necessita de mais atenção. A estrutura física do local data de 1969 e precisa de alguns reparos para continuar atendendo aos alunos e à comunidade deficiente auditiva. Falta sinal luminoso para anunciar a troca de horários entre uma aula e outra e os banheiros são os mesmos para os estudantes de todas as idades. Vale lembrar que, lá, são atendidos estudantes de 4 anos até adultos. Também não há quadra de esportes nem espaço suficiente para que os alunos desenvolvam atividades físicas ao longo do dia.

A despeito das dificuldades, Gabriel, Mayra, Ana Caroline e os demais alunos da escola sempre reservarão para ela um lugar especial em seus corações. Lá, eles se sentem parte do grupo. “Quando entramos de férias, a gente fica em depressão. Lá fora, a gente encontra desprezo e preconceito. Por isso, às vezes, o surdo se sente sozinho, mas aqui fica tudo bem”, emociona-se Gabriel.

Surdos no DF
Segundo o censo demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Distrito Federal, vivem 5.658 deficientes auditivos que não conseguem ouvir de modo algum. O estudo aponta ainda para 16.698 pessoas que têm grande dificuldade para escutar e para outros 82.469 com alguma dificuldade para ouvir.

Setembro azul
Em 26 de setembro, é comemorado o Dia Nacional do Surdo para lembrar a importância, os direitos e a luta dos deficientes auditivos no Brasil. Por conta da data, durante todo o mês de setembro, são realizados seminários, festas, palestras, exposições e apresentações. O Dia do Surdo foi reconhecido e assinado pelo ex-presidente Lula, em outubro de 2008.

(Correio Braziliense, 20/09/2015)

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