Na ficção, Merlí quebra regras, mas de um jeito envolvente conecta a escola à vida dos jovens. Sua forma de ensinar é inspiração para o Dia dos Professores comemorado nesta segunda-feira (15).

Merlí Bergeron é o professor que protagoniza uma série catalã produzida pela TV3 e exibida no Brasil pela Netflix. Vivido pelo ator espanhol Francesc Orella, ele ensina filosofia aos alunos do ensino médio de uma escola pública e aproveita episódios que acontecem na vida dos alunos para abordar os conceitos dos principais pensadores. Na trama, Merlí (que dá nome à série) não está preocupado em aplicar o conteúdo oficial da grade curricular, e sim, em dar sentido à escola e à educação.

O furto de uma prova inspira uma aula sobre Aristóteles, protestos na escola rendem aprendizados sobre Nietzche. Sócrates aparece em um capítulo sobre doutrinação. Muito próximo dos alunos, Merlí também é o docente que os ajuda a descobrir talentos, enfrentar medos, conflitos familiares e viver paixões.

Na vida real, em todos os cantos do Brasil, assim como Merlí, muitos professores fazem a diferença na vida dos alunos. No interior do Ceará, Levi Jucá ensina história na sala de aula, mas mostrou aos estudantes que o grande espaço de aprendizagem pode estar fora da escola. Em Macaparana, em Pernambuco, o professor Jucélio Guedes da Silva tem feito os alunos se apaixonarem por biologia, a disciplina que leciona. Na aula de filosofia de Valmir Ratts, em São Paulo, todo mundo participa – e aprende.

Professor de Ética e Filosofia da USP e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro admira a forma de ensinar de Merlí e diz que a principal virtude do professor fictício é saber ouvir o adolescente.

“No ensino médio, essa escuta de quem é o aluno é ainda mais importante. É um período de escolha de caminhos, de rumo de vida, não é só vocação profissional. Há professores excelentes, bons em suas matérias, carismáticos na relação com os alunos, mas ser Merlí não é fácil não”, diz Janine Ribeiro, que já ministrou dois cursos livres de filosofia em São Paulo inspirados na série.

Janine lembra que Merlí é um “demolidor de regras” e isso o agrada muito. “Aqueles alunos não desenvolveriam o mesmo potencial com outro professor. Merlí vai no conteúdo, vai no coração, e isso é raro. Falta para alguns professores mais segurança de si próprios e mais disponibilidade para saber que as teorias não regem o mundo.”

Expedição, história e orgulho em Pacoti

Em Pacoti, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes no Ceará, o professor de história Levi Jucá, de 30 anos, poderia ter ficado dentro da sala na Escola Estadual de Ensino Médio Menezes Pimentel ensinando os conteúdos previstos no currículo, mas acha que a educação vai muito além dos muros da escola.

Em 2014, ele criou um projeto chamado Jovem Explorador, que leva os alunos do ensino médio a pesquisarem o território onde moram e relacionarem à teoria aprendida na escola. Com o trabalho, Levi ganhou prêmios na área de educação e viajou até a China para apresentar o projeto que segue em andamento.

A vontade de conhecer e registrar a história de Pacoti veio quando Levi ainda estava na graduação, na Universidade Federal do Ceará (UFC). “Quando comecei a dar aulas vi que os alunos não conheciam a cidade, estavam presos ao currículo de história, que é muito mais focado na região Sudeste”, diz. Ele próprio começou a fazer pesquisas, que resultaram no livro Pacoti, História & Memória, lançado em 2014.

Na sala de aula, sempre que podia, Levi associava a história do Brasil à da cidade. “Comecei a ver um brilho no olhar deles e passei a usar meu livro em sala, apesar de não ser um material didático. Os alunos se interessavam mais quando o conteúdo era relacionado ao dia a dia deles.”

Não demorou muito para começarem a sair da escola para explorar a cidade. A ideia surgiu em uma aula sobre Brasil Império em que Levi contava de uma expedição que saiu do Rio de Janeiro para o Ceará com pesquisadores brasileiros. “Falei para eles, que tal fazermos nossa própria expedição e fazer uma releitura da nossa história para vivenciar e conhecer as nossas riquezas? Diferentemente da escola, quando as disciplinas estão separadas, na vida está tudo conectado.”

Localizada em uma área de preservação ambiental do Ceará, Pacoti abriga um trecho de Mata Atlântica, por isso tem um “ar de floresta” e um clima frio que chama a atenção por ser tratar do Nordeste. Por isso, os alunos de Pacoti têm à disposição uma rica natureza para explorar por meio de trilhas.

Guiados pelo professor Levi, eles passaram a fazer expedições e catalogar espécies vegetais, de insetos, além de conversar com moradores, recolher imagens, doações de objetos e registrar depoimentos. O trabalho envolve outras disciplinas além de história. O material recolhido virou um museu batizado de Ecomuseu, que é administrado pelos alunos.

As atividades do Jovem Explorador ocorrem no período do contraturno escolar. Durante as aulas regulares, o professor discute o material recolhido. Essa foi a forma que o professor Levi encontrou de inovar no ensino e cumprir o cronograma estabelecido pela escola.

“Já fiz trilha com os meninos em horário de aula, nunca fui impedido, mas era questionado sempre. ‘Isso está no currículo, vale a pena fazer isso?’ Também já ouvi outros professores falarem: ‘o que você vai fazer na floresta com os meninos se é professor de história?’ A visão tradicional de ensino ainda é muito latente.”

Neste Dia dos Professores, Levi espera que outros docentes saiam de suas zonas de conforto – embora seja mais trabalhoso, segundo ele, o resultado é gratificante. Nos últimos quatro anos ele diz ter aprendido mais do que aprenderia em qualquer doutorado.

“Sei mais sobre plantas e animais, consigo falar sobre muitos assuntos e enxergar a educação de forma integral. Todo espaço é um espaço de aprendizagem; o professor precisa aceitar isso, precisamos ser pesquisadores. Ensinar requer pesquisa, e o mantra do projeto é que só amamos o que conhecemos.”

De quebra, com o trabalho, Levi ganhou amigos. “Passei a ter uma relação mais afetiva, de confiança com os alunos. Frequentamos as casas uns dos outros, comemoramos aniversários, viramos uma família. Todos se tornaram filhos e irmãos, trocamos ideias e aflições.”

Sonhos, diálogos e biologia em Macaparana

No interior do Pernambuco, na cidade de Macaparana, que possui pouco mais de 20 mil habitantes e faz divisa com a Paraíba, Jucélio Guedes Silva, de 44 anos, ensina biologia há duas décadas. Mas foi na rede pública, onde está há pouco mais de um ano, na Escola de Referência em Ensino Médio Professora Benedita de Moraes Guerra, que sente seu trabalho ser ainda mais gratificante. Lá, Jucélio se tornou o queridinho dos alunos.

“Me identifiquei muito com a escola pública, há mais carência e ausência da família entre os alunos. Na rede particular também tem, mas os pais são mais próximos. Na escola pública é difícil observar a presença deles”, diz.

O professor conta que gosta de chegar ao aluno tímido, que fica no canto da sala e não participa das aulas. “Gosto de buscar esse aluno e mostrar que ele é capaz. Não sou psicólogo, mas sou pai de gêmeas de 17 anos. Depois que o aluno entende que estou ali para ajudar, começa a se abrir, escutar mais e percebe que tem condições de melhorar de vida.”

O docente se orgulha em contar que a turma do 3º ano do ensino médio já o convidou para ser homenageado na formatura deste ano. Também gosta de falar que a diretora da escola diz que ele “chegou e mexeu com todo mundo”.

Entre os episódios marcantes dos anos de docência, Jucélio cita o caso de um aluno autista que se agitava na aula quando queria responder às perguntas. “Comecei a deixar ele responder, depois a mãe me contou que ele só queria estudar biologia (quando chegava) em casa. Acabou se tornando um dos melhores alunos de biologia da turma.”

O carisma, segundo ele, faz com que os alunos se interessem mais pela disciplina. Assim como Merlí, Jucélio também não fica totalmente preso ao cronograma do conteúdo obrigatório. “A direção cobra, mas eu não fico preso. A matéria flui à medida que a turma está querendo aula de biologia. Primeiro eu conquisto os alunos, depois eu lanço o conteúdo, eles se encantam, passam a olha de outra forma.”

Como educador, Jucélio diz que seu papel é transformar e ajudar os estudantes a realizar sonhos. “É mostrar que a sociedade pode se tornar melhor à medida que estuda mais. Direciono minha disciplina para que o aluno consiga realizar sonhos. Meu papel é transformar vidas.”

Arte e filosofia em São Paulo

As aulas de filosofia de Valmir Ratts, de 47 anos, na Escola Estadual Padre Anchieta, no Centro de São Paulo, têm música, filme ou teatro. E muito bate-papo. É a forma que ele encontrou de tornar a aula mais dinâmica, envolvente e provar que a filosofia é algo prático na vida dos jovens – e que pode ser divertido.

Valmir é ligado aos movimentos sociais desde a adolescência, por isso a escolha pela filosofia foi muito natural. No início nem pensava em lecionar e teve dificuldade em se posicionar quando a disciplina ainda não era obrigatória na grade curricular.

Hoje já acumula mais de 15 anos lecionando na rede pública. A preferência é por trabalhar com os alunos dos terceiros anos do ensino médio, que têm entre 17 e 18 anos de idade. “Sempre tive proximidade com eles, brinco muito em sala de aula, falo sobre minhas viagens e estou aberto a escutá-los. Mesmo com toda precarização do ensino, tento usar música e audiovisual para deixar as aulas mais dinâmicas.”

O professor também gosta de dividir a sala em grupos e propor atividades como encenações e mímicas. Ele teme que a filosofia perca espaço no novo currículo escolar que será formado a partir da aprovação da Base Nacional Comum Curricular Comum (BNCC) do ensino médio, que ainda está em construção.

Neste Dia dos Professores, Valmir gostaria que os docentes fossem vistos de forma menos idealizada, tal qual na série Merlí. Na trama, o protagonista tem problemas familiares, amorosos e financeiros, assim como todo mundo.

“Uma das coisas que mais gostei em Merlí é que ele mostra seu lado humano. Tanto de ajudar o outro a se encontrar, quanto o seu próprio lado de ter problemas e desafios. Não dá para ser um professor perfeitinho, isso é só na fantasia. O professor também seus problemas e desafios, seus momentos difíceis. Por isso Merlí é uma referência, serve de inspiração.”

(Portal G1 – 15/10/2018)

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