O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), foi divulgado ontem, 3 de setembro, pelo ministério da Educação e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O país não atingiu as metas nos anos finais do ensino fundamental e ensino médio.

Os resultados com os estudantes dos anos iniciais (1° ao 5° ano) do ensino fundamental foram os únicos em que as metas ficaram acima do planejado, atingindo 5,8. Nenhum estado atingiu a meta no ensino médio, o projetado era 4,7 e foi alcançado 3,8.

A especialista em educação no Itaú Social, Juliana de Souza Yade, enxerga os dados do Ideb como negativo e explica que educar é pensar na aprendizagem dos alunos. “Quando nós olhamos para os resultados – que são alarmantes – eles devem também gerar uma possibilidade de a gente fazer uma revisão das políticas educacionais. É ter os resultados dessas avaliações como ferramenta para subsidiar as tomadas de decisões”.

A forma como a educação é empregada e enxergada precisa ser alterada para o cenário mudar, é o que acredita Yade, que é também doutora em Educação. “É um modelo de política educacional que pouco conversa com os territórios onde se dá a educação; que tem uma infraestrutura das unidades escolares que estão cada vez mais degradantes. Então, é olhar para um sistema todo que de fato os professores façam parte desse sistema”.

O diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, vai na linha da Juliana no que diz respeito a olhar para o professor para melhorar a qualidade da educação do país. Mozart afirma que todas as pesquisas feitas no Brasil e exterior apontam que a qualidade do professor faz a diferença na aprendizagem do aluno.

Formação com muita teoria e distante da realidade são um dos principais problemas para o diretor do Instituto, que afirma ser necessário uma revolução no curso. “As universidades precisam repensar as formações, caso de fato o país queira sair da atual situação de baixo índice de aprendizagem escolar tanto nos anos iniciais e finais do ensino fundamental como também no próprio ensino médio. A questão é muito mais grave, por outro lado, no ensino médio. O Brasil precisa fazer uma mudança absolutamente necessária na qualidade da educação e essa mudança passa por uma formação que dialogue com o chão da escola”.

Só 1,62% dos estudantes do último ano do ensino médio que fizeram os testes do Saeb possuem conhecimento adequado de Língua Portuguesa, o que confirma o alerta de Mozart.

Nas instituições particulares do paí,s os ensinos iniciais obtiveram 7,1 de uma meta de 7,2. Nos anos finais o resultado foi 6,4 para um resultado previsto de 6,7. E o ensino médio alcançou 5,8 de uma previsão de 6,7.

São Paulo não cumpriu metas e perdeu a liderança nacional nas três etapas da educação básica do ensino público. A rede privada no estado também não alcançou as metas, ficando com 5,9 do previsto 6,8.

As desigualdades nas redes municipais e estaduais devem ser compreendidas para a compreensão do resultado ruim do estado de São Paulo, em que “geralmente, as redes que têm mais dificuldades estão nas regiões mais periféricas e são as que mais possuem absenteísmo do professor. Existe o esforço docente – o professor está em muitas escolas ao mesmo tempo- que são peculiaridades de redes que estão na periferia”, avalia Yade.

BNCC

Com o intuito de fortalecer a qualidade da educação, as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) devem ser incluídas em todas as escolas do país. Mudanças no setor são assuntos sempre polêmicos e cheios de divisões. Yade vê a BNCC como positiva no conjunto de aprendizagens essenciais para os estudantes. “É importante porque cada vez mais temos o processo de migração – aluno vai para uma escola e outra- e isso é garantir que haja uma coesão no currículo escolar. Mas claro que isso deve também ser adaptado de acordo com a realidade. Não é universalizar o ensino, mas sim pautá-lo de acordo com cada realidade, conversar com as propostas locais, com autonomia e com a biodiversidade que ocupa cada território”.

Habilidades socioemocionais como solidariedade, empatia, ética e trabalho em equipe fazem parte das novas regras da BNCC que as escolas devem trabalhar com os alunos. Juliana defende que essas habilidades são essenciais para o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos não só na escola, mas em toda a existência. “As competências que estão descritas são competências para a vida em sociedade, é para um bem viver. A escola precisa também auxiliar no desenvolvimento dessas competências”.

O Ideb foi criado em 2007 e é o principal indicador de qualidade da educação básica do país. O resultado é calculado a cada dois anos pela média das notas de português e matemática dos alunos no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e sobre os dados da aprovação escolar, obtidos pelo Censo Escolar. A rede particular participou por adesão.

(Revista Educação, 4/9/2018)

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