Uma forma de comunicação que está caindo desuso se tornou uma aliada no ensino de alunos do 4° ano do ensino fundamental. Para estimular as crianças a ler e escrever, um grupo de professoras criou um projeto de troca de cartas entre estudantes de todas as regiões do país.

Além de lições de língua portuguesa, as turmas aprendem um pouco de geografia, história e até matemática através das correspondências. O projeto “Viajando pelo Brasil Através de Cartas” reúne 28 turmas de 27 escolas do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais, Pará, Sergipe e Mato Grosso.

“Eles aprendem um pouco de várias disciplinas. São conhecimentos gerais, digamos assim”, explica ao G1 a professora Janaína Flores, de São Sebastião do Caí, a cerca de 65 km de Porto Alegre. Segundo ela, a ideia surgiu em conversas entre professores que dividem suas experiências em um grupo formado por docentes de várias cidades do Brasil.

“A gente falava sobre como trabalhar os gêneros textuais em sala de aula. Inclusive a gente sabe que carta é algo que a gente nem usa muito mais, né? Mas pensamos em como usar essa ferramenta e conectar as cinco regiões do Brasil”, afirma. Com a tarefa, os alunos trabalham produção de texto, pesquisam sobre localização e distância entre as cidades, número de habitantes, e descobrem sobre costumes e cultura de cada região.

Na cidade gaúcha, duas escolas participam das atividades: a Escola Estadual de Ensino Fundamental Josefina Jacques Noronha e a Escola Municipal São José. Junto com ela, outras quatro organizam o projeto: Paula Fernanda Corrêa do Prado, de Mogi das Cruzes (SP), Charleny Aparecida de Moura Fernandes, de Uberlândia (MG), Fabiana Pinto Gomes Lima, de Nova Iguaçu (RJ) e Susana Alves da Silva, de Brasília (DF).

Nas primeiras cartas, enviadas em março deste ano, os alunos escreveram sobre o meio em que vivem: descreveram seus bairros, suas cidades e suas escolas. “A primeira carta foi uma tarefa coletiva. A gente, inclusive, tirou e enviou fotos de pontos turísticos, para mostrar exatamente de que lugar estávamos falando”, comenta a professora.

“O próximo exercício será mais pessoal. As crianças vão escrever um pouco sobre si mesmas, seus gostos, seus sonhos. Vai ser uma tarefa mais autobiográfica”, completa.

Rede de amizade

É só o carteiro chegar à escola para os alunos fazerem uma festa. Na sala de aula, todos leem em voz alta as correspondências recebidas. Todas foram fixadas em um mural.Entre os estudantes, a opinião é unânime.”Eu gosto muito desse projeto. Com ele, a gente conhece um pouco do resto do Brasil”, diz Renan Hanauer, de 10 anos. Rakelly Bueno de Moraes, de 9 anos, que não tinha muito gosto por ler e escrever, admite que isso está mudando por causa das cartas.

Além da parte didática, o projeto está formando uma espécie de rede de amizade. Segundo a professora, a troca de informações tem aproximado os alunos. “A gente conhece várias pessoas. Eu falo sobre a minha família, conto o que gosto de fazer, o que gosto de comer. E quero saber dos outros também”, diz Mônica Toia, de 10 anos. Para ela, enviar cartas foi uma experiência inédita. Os próprios alunos foram até os Correios. “Eu não sabia como se fazia isso”, comenta.

Para os professores, o desafio é manter o interesse do aluno pela leitura e escrita convencional em meio a um universo cada vez mais digital. “Eles abreviam tudo, usam o corretor automático. Com tanta tecnologia à disposição, escrever com papel e caneta é um ato cada vez mais pessoal”, pontua a professora.

(G1, 16/06/2018)

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