Apenas 21% dos professores da educação básica no Brasil afirmam estar totalmente satisfeitos com a atividade docente, enquanto um terço deles (33%) diz estar totalmente insatisfeito com a profissão.

É o que mostram os dados da pesquisa “Profissão Docente”, divulgada nesta segunda-feira (30). O levantamento é uma iniciativa do Todos Pela Educação e do Itaú Social, com realização do Ibope Inteligência em parceria com a Conhecimento Social.

A pesquisa ouviu 2.160 professores da educação básica (desde a educação infantil até o ensino médio) de todo o Brasil, tanto da rede pública como da rede privada. A coleta foi realizada por telefone entre os dias 16 de março e 7 de maio deste ano. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

De acordo com o levantamento, 78% dos professores afirmam ter escolhido a carreira principalmente por aspectos ligados à afinidade com a profissão, como o prazer por ensinar ou transmitir conhecimento (34%) e a aptidão e talento para ser professor (13%).

Ao mesmo tempo, quase metade dos docentes (49%) não recomendaria a própria profissão para um jovem por considerá-la “desvalorizada”.

“Quando o professor tem dificuldade em ver sua motivação se concretizar na prática –o que tem a ver com uma estrutura de formação, de preparo e de apoio muito frágil, com condições de trabalho não adequadas– isso se reflete em uma insatisfação profissional”, diz Olavo Nogueira Filho, diretor de políticas educacionais do Todos Pela Educação.

Ana Carolina Timóteo, 26, é professora há 7 anos. Formada em Letras, ela dá aulas para turmas do ensino fundamental 2 (do 6º ao 9º ano) em uma escola da rede municipal em Minas Gerais e também na rede privada.

“É uma paixão, é um prazer muito grande estar em sala de aula. Apesar de tudo, a melhor parte é essa”, afirma.
Na opinião dela, o professor é desvalorizado, principalmente, pela gestão pública. “Tem se encarado o trabalho do professorado como um ‘bico'”, diz.

A pesquisa aponta que a qualificação e a escuta dos professores são, para os docentes, as medidas mais eficazes a serem tomadas para que haja maior valorização da profissão pela sociedade. Eles apontam a necessidade da formação continuada (69%) e a escuta dos docentes para a formulação de políticas educacionais (67%). Em seguida, a restauração da autoridade e do respeito à figura do professor (64%) e o aumento salarial (62%).

“As duas principais medidas indicadas pelos professores como as mais efetivas para valorizar a carreira envolvem mais oportunidade de qualificação para eles. É um pedido claro dos professores dizendo: ‘olha, falta me apoiar, me dar mais oportunidade de formação para que eu possa melhorar a minha prática'”, afirma Nogueira.

“É preciso parar de tratar o professor como um sujeito iluminado, que trabalha por um ‘muito obrigado’, por uma realização pessoal. A gente quer ter condições de trabalhador: hora para chegar, para sair. Tem que ser vista a questão da hora extra, do trabalho em casa”, pontua Ana Carolina.

Formação e condições de trabalho O levantamento também aponta que os cursos de formação inicial não parecem ser suficientes para o exercício da profissão, na avaliação dos docentes.

DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO E AS ELEIÇÕES

Só 29% dos professores ouvidos concordam com a afirmação de que esses cursos os prepararam para os desafios do começo da docência. Por outro lado, 79% deles afirmam ter continuado os estudos depois da graduação, buscando, principalmente, uma especialização.

“Isso é um reflexo de que o professor quer tentar melhorar e se aprimorar. E isso é natural, entendendo que a formação inicial não consegue prepará-lo para o todo da profissão, para o todo da sua carreira”, afirma Nogueira.

Segundo a pesquisa, os professores trabalham, em média, em uma a duas escolas: 63% dizem trabalhar em um colégio, enquanto 30% dizem trabalhar em dois. A professora Ana Carolina diz que divide sua rotina em duas jornadas de trabalho por uma questão de renda.

“A conta não fecha com esse salário que a gente recebe”, lamenta. “Muita gente trabalha em duas, três escolas, e tem que fracionar sua memória, sua capacidade de trabalho também em duas ou três vezes”, diz.

Nogueira concorda: “Isso pode parecer bobagem, mas dar aula em mais de uma escola significa que você, em uma mesma rotina profissional, está lidando com duas dinâmicas de trabalho diferentes, com dois contextos diferentes”.

“Para uma profissão que exige um preparo, um planejamento, um trabalho colaborativo com a sua equipe, é algo que prejudica enormemente a qualidade da prática profissional. Avançar no que a gente chama de dedicação exclusiva, com o professor em uma única escola, é algo importante”, complementa.

A professora Ana Carolina afirma que, apesar das dificuldades em sua rotina, ainda recomendaria a profissão para outras pessoas. Mesmo assim, ela diz acreditar que não será professora por muitos anos.

“É um problema. Sou apaixonada pela sala de aula, mas sei que não vou conseguir ficar lá por 20, 30 anos. Como a gente faz hoje, dando 40 aulas em uma semana, cada uma delas de 50 minutos, é impossível uma pessoa da faixa etária de 50 anos continuar com essa rotina”, diz. “É desumano. A gente vai cansando”, lamenta.

(Portal UOL, 30/07/2018)

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